37 fintechs ligadas a bets ilegais: o mapa do governo
Secretaria da Fazenda identificou 37 fintechs e 350 pessoas por trás da estrutura financeira de jogos clandestinos no Brasil.

O governo federal mapeou 37 fintechs diretamente ligadas a esquemas de apostas esportivas clandestinas no Brasil. Segundo a Finsiders, a Secretaria de Prêmios e Apostas (SPA), órgão vinculado ao Ministério da Fazenda, identificou ainda 350 pessoas físicas envolvidas na estrutura financeira que movimentava esses jogos ilegais.
Como esse esquema funcionava
Fintechs são empresas de tecnologia financeira que oferecem serviços como contas digitais, transferências e processamento de pagamentos. No caso investigado, algumas dessas empresas teriam sido usadas como engrenagens para movimentar dinheiro das chamadas 'bets ilegais', ou seja, plataformas de apostas que operam sem autorização do governo.
O modelo é mais sofisticado do que parece. Em vez de usar um banco tradicional, que teria mais rastreabilidade e controle regulatório, os operadores clandestinos recorriam a fintechs para processar depósitos e saques dos apostadores. O dinheiro entrava, circulava e saía com muito mais agilidade, o que dificultava a identificação pelas autoridades.
Pra ter uma ideia do tamanho do problema: o mercado de apostas ilegal no Brasil movimenta bilhões de reais todos os anos, e boa parte desse fluxo passa por canais financeiros que fogem da supervisão do Banco Central.
350 pessoas e 37 empresas na mira
O levantamento da SPA não é pouca coisa. Chegar a 350 nomes e a 37 fintechs específicas exige cruzamento de dados financeiros, registros de transações e informações fiscais, o tipo de investigação que leva meses. O mapeamento indica que o governo já tem, ao menos, a espinha dorsal do esquema identificada.
Ainda não foram divulgados os nomes das fintechs ou das pessoas envolvidas, o que é comum nesse tipo de apuração enquanto as investigações seguem em andamento. A tendência é que os próximos passos incluam notificações ao Banco Central, possíveis cassações de licença e encaminhamento de casos à Polícia Federal.
Por que o setor de fintechs virou porta de entrada
O setor financeiro tradicional tem regras rígidas de prevenção à lavagem de dinheiro, conhecidas como normas de 'compliance' (conformidade regulatória). Bancos grandes são obrigados a monitorar e reportar transações suspeitas ao Conselho de Controle de Atividades Financeiras, o COAF.
Algumas fintechs menores, por outro lado, ainda estão construindo suas estruturas de controle interno, o que pode abrir brechas para uso indevido. Não é que o setor como um todo seja problemático, longe disso: Nubank, Inter e centenas de outras fintechs sérias operam com total conformidade. O problema são empresas criadas especificamente, ou adaptadas, para servir a esse tipo de esquema.
Esse é um ponto sensível para o setor: quando fintechs aparecem em investigações criminais, a desconfiança do consumidor pode recair sobre empresas legítimas também. Por isso, entidades do setor de tecnologia financeira costumam ser as primeiras a pedir mais regulação e mais fiscalização dos agentes que operam na margem.
O que acontece agora com os envolvidos
A partir daqui, os caminhos possíveis incluem:
- ✓Notificação formal das fintechs identificadas pelo Banco Central, que é o regulador do sistema financeiro
- Abertura de inquéritos administrativos para apurar se houve negligência ou participação ativa nos esquemas
- Cassação de autorizações de funcionamento para as empresas que tiverem envolvimento comprovado
- Encaminhamento dos casos à Polícia Federal para investigação criminal das 350 pessoas mapeadas
- Bloqueio de ativos e contas ligadas à operação, se houver ordem judicial
O seu PIX pode ter cruzado com esse dinheiro
Pode parecer distante, mas não é. Quando dinheiro ilegal circula pelo sistema financeiro, ele se mistura com transações legítimas, o que eleva o custo de fiscalização pra todo mundo e, no longo prazo, aumenta a pressão regulatória sobre serviços que você usa todos os dias, como pagamentos instantâneos e contas digitais.
Além disso, parte dos recursos gerados por bets ilegais costuma ter origem em pessoas que perderam dinheiro que não tinham pra perder, apostando em plataformas sem qualquer garantia de pagamento ou mecanismo de proteção ao consumidor. O impacto social é real e direto.
O mapeamento da SPA é um passo importante, mas o setor financeiro e os órgãos regulatórios ainda têm um caminho longo pela frente para fechar as brechas que tornaram esse esquema possível. O que vale observar nas próximas semanas é se o Banco Central vai reagir com novas exigências regulatórias para fintechs de menor porte.
Leia também
Selic em 14,25%: onde colocar o dinheiro agora no Tesouro Direto?
Fontes
Termômetro de imparcialidade
Compromisso editorial: notícia sem viés. Como você avalia a cobertura desta matéria?
📚 Continue lendo
🧰 Mais ferramentas financeiras
Calculadoras gratuitas de investimentos, dívidas e muito mais.
Comentários
Seja o primeiro a comentar.
