Varejo brasileiro tem pior queda em quase 4 anos em abril
Vendas no varejo recuaram em abril no pior resultado em quase quatro anos, segundo o IBGE, pressionadas por juros altos e crédito caro.

As vendas no varejo brasileiro tiveram em abril a maior queda em quase quatro anos, segundo dados divulgados pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). O resultado surpreendeu analistas e acende um sinal de alerta sobre o ritmo do consumo das famílias no país, num momento em que o crédito segue caro e a inflação ainda corrói o orçamento de quem vai às compras.
O que os números mostram
A retração do varejo em abril não é um número isolado. Ela aparece num contexto em que a taxa Selic (a taxa básica de juros do Brasil, definida pelo Banco Central) está em patamar elevado. Quando os juros sobem, o custo de parcelar aquela geladeira ou trocar de celular aumenta junto. O crédito fica mais caro, as pessoas pensam duas vezes antes de comprar, e o varejo sente na pele.
O intervalo de quase quatro anos é relevante porque coloca esse resultado no mesmo nível de períodos difíceis da economia brasileira. Não é exagero dizer que é um dos piores momentos para os lojistas desde o pós-pandemia.
Um passo atrás: como chegamos aqui
Depois de um período de recuperação do consumo entre 2022 e 2024, o varejo começou a dar sinais de cansaço. O crédito fácil que impulsionou as compras foi perdendo força à medida que os juros subiram para conter a inflação. O Banco Central elevou a Selic várias vezes nos últimos ciclos e, mesmo com alguma estabilização, o efeito ainda pesa. Empréstimo mais caro, parcela mais alta, consumidor com menos fôlego.
Além disso, setores como vestuário, eletrodomésticos e materiais de construção, que puxam bastante o índice do varejo, têm sofrido com a combinação de preços altos e renda real ainda pressionada para boa parte das famílias.
Quem sente mais no dia a dia
Na prática, essa queda é o retrato de decisões que já aconteceram na casa de muita gente: adiar a troca do fogão, cancelar a compra do sofá, optar pelo produto mais barato na prateleira. O varejo ampliado, que inclui veículos e materiais de construção, costuma ser ainda mais sensível a esse movimento.
Os setores mais afetados tendem a ser:
- ✓Eletrodomésticos e eletrônicos, cujas compras dependem muito de parcelamento e crédito acessível
- ✓Vestuário e calçados, que sofrem quando o orçamento aperta e o consumidor prioriza essas contas
- ✓Móveis e decoração, segmento ligado à confiança no longo prazo e ao mercado imobiliário
- ✓Materiais de construção, que caem junto com a retração nos financiamentos habitacionais
O que lojistas e trabalhadores do setor enfrentam
Para quem trabalha no comércio, a queda nas vendas costuma chegar antes como metas difíceis de bater, depois como redução de horas ou, nos casos mais graves, demissões. O varejo é um dos maiores empregadores do país, então um resultado fraco por vários meses seguidos se traduz em pressão no mercado de trabalho como um todo.
Para o pequeno comerciante, o problema é ainda mais direto: estoque parado, capital de giro comprometido e contas a pagar que não esperam. Não é raro que períodos assim aumentem os pedidos de renegociação com fornecedores.
O que observar nos próximos meses
O desempenho do varejo nos próximos meses vai depender, em boa parte, de como o Banco Central vai sinalizar o caminho dos juros. Se houver espaço para cortes na Selic, o crédito fica mais acessível e o consumo tende a reagir. Mas isso não costuma acontecer da noite pro dia: o efeito dos juros no bolso das pessoas demora de seis meses a um ano para ser sentido de forma mais ampla.
O calendário comercial também vai jogar um papel: o segundo semestre tem Dia dos Pais, Black Friday e Natal, datas que historicamente movimentam o varejo. Se os números de maio e junho seguirem fracos, a pressão sobre essas datas começa a crescer bem antes de elas chegarem.
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