Stablecoins de dólar superam bitcoin entre pequenos investidores da América Latina
Pela primeira vez, moedas digitais atreladas ao dólar são mais usadas que o bitcoin no varejo latinoamericano, segundo a exchange Bitso.

As stablecoins em dólar (moedas digitais cujo valor é fixado 1 a 1 ao dólar americano) ultrapassaram o bitcoin em volume entre investidores de varejo da América Latina pela primeira vez. Os dados são da Bitso, uma das principais exchanges de criptomoedas da região, e consideram uma base de cerca de 10 milhões de usuários de varejo.
Por que stablecoin e não bitcoin?
Quem nunca acompanhou cripto pode estranhar o resultado. Afinal, o bitcoin é o nome mais famoso do setor, aquele que todo mundo já ouviu pelo menos uma vez no almoço de domingo. Mas justamente por ser famoso, ele também é o mais volátil: sobe e cai dezenas de porcentos em questão de semanas, o que assusta quem quer só proteger o poder de compra do próprio dinheiro.
A stablecoin resolve esse problema de um jeito bem direto: ela é programada pra valer sempre 1 dólar. Não sobe muito, não cai muito. Pra quem vive num país com inflação alta ou moeda instável, ter uma 'poupança em dólar' sem precisar de conta gringa virou uma opção muito concreta.
O que está por trás dessa virada na América Latina
A região tem um histórico longo de instabilidade monetária. Argentina, Venezuela e até o Brasil em décadas passadas já conviveram com desvalorização acelerada do dinheiro local. Mesmo hoje, com câmbio oscilante no Brasil e hiperinflação galopante em países vizinhos, guardar valor em dólar é um instinto que muita gente carrega.
Antes, fazer isso exigia abrir uma conta em banco fora do país, pagar taxas altas de câmbio ou guardar notas debaixo do colchão. A stablecoin entrou nesse espaço vazio: dá pra comprar frações com poucos reais, guardar no celular e transferir pra qualquer lugar sem burocracia.
Não à toa, a lógica é parecida com o que o Pix fez com os pagamentos no Brasil: simplificou algo que antes era chato e caro, e aí o volume explodiu.
Quem são os 10 milhões e o que eles estão fazendo
A Bitso opera principalmente no México, Brasil, Argentina e Colômbia. A base de 10 milhões de usuários de varejo mencionada na pesquisa é formada por pessoas físicas comuns, não por fundos ou grandes investidores institucionais. Ou seja, não é Wall Street usando stablecoin: é gente que quer guardar dinheiro de um jeito diferente do que a conta corrente oferece.
Algumas motivações que aparecem com frequência nesse perfil de usuário:
- ✓Proteger o salário da desvalorização cambial antes de gastar
- ✓Fazer remessas internacionais com taxas menores do que os bancos tradicionais cobram
- ✓Manter uma reserva em dólar sem precisar de conta no exterior
- ✓Usar como passo intermediário antes de comprar outros ativos digitais
O que muda pra quem está olhando cripto pela primeira vez
Se você nunca comprou nenhum ativo digital e ficou com medo da volatilidade do bitcoin, a stablecoin pode ser um ponto de entrada menos assustador. Não tem a promessa de enriquecer rápido que o bitcoin carrega, mas também não tem o risco de ver metade do valor evaporar num mês.
O ponto de atenção é que stablecoin não é poupança garantida pelo governo como o FGTS ou o Tesouro Direto (o programa do governo federal que permite comprar títulos públicos). O risco é diferente: depende da solidez de quem emite a moeda e da exchange onde ela fica guardada. Pesquise antes de colocar dinheiro em qualquer plataforma.
O dado da Bitso é um termômetro de comportamento. Quando o varejo começa a preferir estabilidade a especulação dentro do próprio mercado de cripto, isso diz alguma coisa sobre o momento: menos euforia, mais pragmatismo. E a América Latina, com toda a sua experiência em moeda bagunçada, chegou a essa conclusão antes de boa parte do mundo.
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