Gestoras fogem do Brasil e correm pro dólar antes do Copom
Levantamento da XP mostra que 80% dos fundos já estão comprados em dólar. Selic deve cair, mas convicção no ciclo diminui.

Oito em cada dez gestoras de fundos no Brasil já estão com posição comprada em dólar (ou seja, apostando que a moeda americana vai subir). Segundo levantamento da XP com 25 casas de investimento, o movimento representa um abandono em massa do chamado 'kit Brasil', pacote de apostas otimistas que combinava bolsa em alta, real valorizado e juros em queda.
O que é o 'kit Brasil' e por que todo mundo estava nele
O 'kit Brasil' é um conjunto de apostas que faz sentido quando os gestores acreditam que o país vai bem: você compra ações na bolsa, aposta no fortalecimento do real frente ao dólar e espera que os juros caiam ao longo do tempo. Quando isso tudo anda junto, quem montou esse combo ganha em várias frentes ao mesmo tempo. Funcionou bem em alguns momentos dos últimos anos, quando o mercado estava mais otimista com o cenário econômico doméstico.
O problema é que o otimismo murchou.
Por que os fundos estão trocando o Brasil pelo dólar agora
A pressão vem de pelo menos dois lados. Primeiro, a inflação no Brasil não está bem comportada. Com os preços teimando em subir acima do centro da meta do Banco Central, a aposta de que os juros vão cair rápido e de forma consistente ficou mais difícil de sustentar. Segundo, o Copom (Comitê de Política Monetária do Banco Central, que define a taxa Selic) se reúne em breve, e o mercado tá dividido sobre até onde vai esse ciclo de cortes.
A maioria das gestoras ainda espera um corte de 0,25 ponto percentual na Selic (a taxa básica de juros do Brasil, que hoje está em 14,5% ao ano), segundo o levantamento da XP. Mas a convicção de que o ciclo de cortes vai continuar por muito tempo diminuiu bastante. Em outras palavras: todo mundo acha que vai cair um pouco agora, mas ninguém tem certeza do que vem depois.
O que os dados mostram na prática
O levantamento traz alguns números que chamam atenção:
- ✓80% dos fundos consultados estão comprados em dólar, apostando na valorização da moeda americana frente ao real
- ✓A aposta majoritária ainda é de corte de 0,25 p.p. na Selic na próxima reunião do Copom
- ✓A convicção de longo prazo no ciclo de afrouxamento (processo de queda gradual dos juros) diminuiu de forma relevante
- ✓O movimento representa uma virada significativa em relação ao posicionamento otimista que marcou boa parte dos últimos meses
Isso não significa que todas as gestoras acham que o Brasil vai mal. Significa que o risco aumentou o suficiente para que proteger o portfólio com dólar faça mais sentido do que apostar no crescimento doméstico.
Um passo atrás: de onde viemos
No começo deste ano, havia um certo entusiasmo com a trajetória de queda da Selic. O Banco Central havia iniciado um ciclo de cortes, e o mercado esperava que os juros caíssem de forma mais acelerada ao longo de 2026. Com juros menores, a bolsa tende a subir (porque fica mais barato para as empresas se financiarem) e o real tende a se fortalecer (porque o dinheiro busca o risco quando a renda fixa paga menos). Esse era o cenário que alimentava o 'kit Brasil'.
O que mudou foi a combinação de uma inflação que não cedeu como esperado, incertezas fiscais e um ambiente externo mais volátil. Com isso, o Banco Central ficou numa posição mais delicada: cortar demais pode reaquecer a inflação, cortar de menos frustra o mercado. O resultado é exatamente essa hesitação coletiva que o levantamento da XP capturou.
O que isso tem a ver com o seu dinheiro
Se você tem dinheiro em fundo de investimento, parte do que está acontecendo já reflete no desempenho. Fundos multimercado (que misturam renda fixa, bolsa, câmbio e outros ativos) costumam montar exatamente esse tipo de posição. Se o dólar subir de fato, quem apostou nisso ganha. Se a Selic cair menos do que o esperado, a renda fixa pré-fixada (aquela que trava uma taxa hoje para receber no futuro) pode sofrer um pouco.
Para quem está na renda fixa conservadora, como Tesouro Selic ou CDB pós-fixado (que rendem conforme a taxa de juros varia), o cenário de juros altos por mais tempo é até positivo: o dinheiro continua rendendo bem enquanto a Selic se mantiver elevada. O ponto de atenção fica para quem tem ativos de risco na carteira e não ajustou o posicionamento.
O próximo Copom é o evento mais importante a acompanhar. A decisão sobre o ritmo de corte da Selic vai sinalizar se o Banco Central ainda tem confiança no processo de desinflação ou se prefere segurar o pé no freio por mais tempo. Nesse segundo caso, o movimento de fuga do 'kit Brasil' pode se intensificar.
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Fontes
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