Pedidos de terras raras disparam no Brasil e batem recorde histórico
Solicitações à ANM em 2026 já representam 84% de tudo que foi pedido nos 45 anos anteriores, segundo dados do órgão.

O Brasil está no centro de uma corrida silenciosa por minerais estratégicos. Em pouco mais de cinco meses, foram protocolados 401 pedidos de exploração de terras raras junto à Agência Nacional de Mineração (ANM) — um número que equivale a 84% de tudo que foi solicitado entre 1975 e 2020, período de 45 anos em que o total não passou de 476 registros, segundo dados divulgados pelo órgão.
Um salto sem precedente na história da mineração brasileira
Para entender a dimensão do fenômeno, basta uma comparação: o Brasil levou quase meio século para acumular 476 pedidos relacionados a terras raras. Em 2026, esse patamar está sendo quase igualado em menos de seis meses. Não há registro de crescimento tão acelerado nessa categoria desde a criação do sistema de controle mineral no país.
O ritmo atual sugere que, ao final do ano, o total de solicitações pode superar em mais de duas vezes tudo que foi pedido nas décadas anteriores somadas.
O que são terras raras e por que o mundo as quer tanto
Terras raras são um grupo de 17 elementos químicos com propriedades únicas de condutividade, magnetismo e luminescência. São insumos indispensáveis para:
- ✓Baterias de veículos elétricos e híbridos
- ✓Turbinas de energia eólica
- ✓Chips e semicondutores de alta performance
- ✓Sistemas de defesa militar, incluindo mísseis guiados
- ✓Telas de smartphones, televisores e equipamentos médicos
A China controla hoje cerca de 60% da produção mundial e mais de 85% do processamento desses minerais. Esse monopólio virou ponto de atrito geopolítico, especialmente após restrições impostas por Pequim às exportações nos últimos anos, o que acelerou a busca por alternativas em outros países.
Brasil como protagonista na disputa global por minerais críticos
O Brasil possui uma das maiores reservas confirmadas de terras raras do planeta, concentradas principalmente em Minas Gerais, Goiás e na região amazônica. Durante décadas, esse potencial ficou subaproveitado por falta de interesse comercial e dificuldades regulatórias. O cenário mudou com a reconfiguração das cadeias globais de suprimento.
A pressão geopolítica entre Estados Unidos e China, somada à demanda crescente por tecnologias verdes e de defesa, transformou o acesso a esses minerais em questão de segurança nacional para diversas potências. Isso explica o interesse crescente de empresas e governos estrangeiros em garantir posição no Brasil antes que as melhores áreas sejam concedidas.
Não por acaso, o tema já aparece nas negociações comerciais entre Brasília e Washington. O governo norte-americano incluiu acesso a minerais críticos entre os pontos de discussão no contexto das tarifas e acordos bilaterais em curso.
O que isso representa para quem investe
Para o investidor brasileiro, o movimento abre uma janela de atenção sobre empresas do setor de mineração com exposição a terras raras listadas na bolsa — tanto nacionais quanto estrangeiras. A corrida por pedidos de lavra é o primeiro passo de um processo longo: após a solicitação, vêm estudos de viabilidade, licenciamento ambiental, captação de recursos e, eventualmente, produção. O ciclo pode levar anos.
Isso significa que o impacto econômico direto não é imediato, mas os movimentos de mercado costumam antecipar a tese. Ações de mineradoras com projetos em estágio inicial tendem a reagir a notícias de demanda e política setorial antes mesmo de qualquer receita aparecer nos balanços. O risco é proporcionalmente alto.
Para o brasileiro fora do mercado financeiro, o reflexo mais concreto virá no médio e longo prazo: se o país se consolidar como fornecedor relevante de terras raras, há potencial de geração de empregos, royalties para municípios produtores e fortalecimento da balança comercial — o que, em última instância, influencia o câmbio e os preços internos.
O que observar nos próximos meses é o ritmo de concessões efetivas pela ANM, a posição do governo federal sobre o marco regulatório do setor e eventuais acordos bilaterais que envolvam acesso prioritário a esses minerais — pontos que devem pautar tanto o noticiário político quanto os movimentos de capital estrangeiro no país.
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