Alemanha e Japão voltam a se rearmar 80 anos após a Segunda Guerra
Dois países que saíram derrotados em 1945 agora investem em defesa própria, pressionados pela nova ordem geopolítica global.

Alemanha e Japão, as duas grandes potências derrotadas na Segunda Guerra Mundial, estão rompendo com décadas de contenção militar e voltando a investir de forma séria em suas forças armadas. O movimento, segundo a InfoMoney, representa uma virada histórica para dois países que passaram os últimos 80 anos com exércitos reduzidos e segurança terceirizada, em grande parte, para os Estados Unidos.
80 anos de dependência: como chegamos até aqui
Quando a Segunda Guerra terminou, em 1945, tanto Alemanha quanto Japão foram vencidos e ocupados pelos Aliados. A lição que o mundo impôs a eles foi clara: nunca mais. Os dois países foram reconstruídos sob constituições que limitavam severamente o uso da força militar, com ênfase total em diplomacia e economia. O Japão chegou a proibir constitucionalmente a manutenção de forças de guerra. A Alemanha, por sua vez, entrou para a OTAN (a aliança militar ocidental liderada pelos EUA) mas sempre como sócio secundário, com gastos em defesa bem abaixo dos demais membros.
Por décadas, esse arranjo funcionou razoavelmente bem. Os EUA bancavam boa parte da segurança do mundo ocidental, e Berlim e Tóquio podiam colocar dinheiro em outras coisas: infraestrutura, educação, indústria, exportações. O Japão virou potência econômica. A Alemanha se tornou o motor da Europa. Mas a conta chegou.
O que mudou para acelerar esse processo
A combinação de fatores que levou os dois países a rever essa postura é longa, mas alguns merecem destaque:
- ✓A guerra na Ucrânia, iniciada com a invasão russa em 2022, colocou a segurança europeia em xeque e deixou claro que conflitos armados em solo europeu não eram ficção científica.
- ✓A postura do governo Trump de cobrar que aliados da OTAN gastem mais com defesa criou pressão direta sobre Berlim, que historicamente fica abaixo da meta de 2% do PIB (produto interno bruto, o total de riqueza produzida por um país) estabelecida pela aliança.
- ✓O Japão enfrenta tensões crescentes com a China e a Coreia do Norte, e viu na postura americana mais imprevisível um sinal de que não pode depender apenas de Washington para sua segurança.
- ✓Os dois países aprovaram orçamentos de defesa significativamente maiores nos últimos anos, rompendo tabus políticos que duravam gerações.
A Alemanha anunciou um pacote bilionário de investimentos militares e flexibilizou regras fiscais que antes impediam esse tipo de gasto. O Japão, por sua vez, aprovou um plano para dobrar seus gastos com defesa ao longo de alguns anos, alcançando 2% do PIB, algo que o país nunca havia feito desde o fim da guerra.
O paradoxo histórico que ninguém consegue ignorar
Tem algo de irônico aqui que vale nomear: os dois países que os EUA derrotaram militalmente em 1945, e cuja capacidade bélica foi deliberadamente limitada depois disso, agora se rearmam em parte porque o próprio governo americano sinalizou que pode não estar sempre disponível para protegê-los. A aliança do pós-guerra foi construída com os EUA no centro. Quando esse centro balança, os aliados precisam se mover.
Especialistas ouvidos por veículos internacionais apontam que esse movimento não significa que Alemanha e Japão querem conflito, mas que estão se adaptando a um mundo onde a ordem construída em 1945 está sendo reescrita, peça por peça.
O que isso tem a ver com o seu dinheiro
À primeira vista, parece longe da sua rotina. Mas rearmamento em escala global costuma ter efeitos concretos nos mercados. Ações de empresas do setor de defesa sobem quando países anunciam aumento de gastos militares, e fundos de investimento que têm essas empresas na carteira sentem esse movimento. Além disso, uma Europa mais militarizada e um Japão mais assertivo mudam as relações comerciais globais, o que afeta exportações brasileiras, câmbio e até os juros que o Banco Central aqui observa ao tomar decisões.
O Ibovespa (o principal índice da bolsa de valores brasileira) opera num ambiente global, e tensões geopolíticas afetam o apetite por risco dos investidores internacionais. Quando o mundo parece mais instável, o capital tende a fugir de países emergentes, como o Brasil, e correr para ativos considerados mais seguros. O movimento de rearmamento da Alemanha e do Japão é um sinal de que os grandes players do mundo estão se preparando para um ambiente mais tenso, e isso raramente passa em branco nos mercados.
Nos próximos meses, vale observar como o orçamento militar alemão avança no Parlamento europeu e de que forma o Japão negocia com os EUA o reposicionamento das forças americanas na Ásia. Esses são os termômetros reais de até onde esse rearmamento vai.
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